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QUANDO O OUTRO

Diz que a pedra, de tanto bater, fura — e o sulco fica, feito marca em couro velho, nunca mais desfeita. Pedra não é areia nem água — não se molda pedra, não se amacia gente. E sem barulho, nem alarde, feito pedra rachando fundo dentro d'água, veio o primeiro fio de estranheza — atravessando o peito, apertando, engasgando, fazendo nó que não se desfaz. O que o olho vê e o verolha não é o outro mais: é o não-ver. Será a cegueira virada do avesso? Talvez o regresso, a lembrança puxada, seja só uma correria desesperada pra aquilo que já nem se pode mais ajuntar. O que era firme amoleceu, desmilinguido, e a tua palavra, que era roca de fiar, virou bravata — precisando de disfarce pra poder ser, de ser pra abafar dor. No Buriti, um alguém, sem querer querendo, largou umas palavras. E a que mais ecoa é aquela que disse da mistura do mundo — que todas as cores remexidas fazem é lodo. Lodo de tinta que nem pinta, nem sabe mais que cor devia ter um coração. Era bom demais... aquela inocênci...

TAKE AWAY

  

3.0

Gostaria de ser tão criativa quanto o poeta Fernando Pessoa, que usou seu heterônimo e conseguiu um belo poema sobre o dia de seus anos. Embora, não consiga ser boa ao escrever sobre o dia que em todos os anos comemoro a chegada desses meus anos, hoje, exclusivamente hoje, acordei e me olhei no espelho de modo atento, perscrutando aquela imagem, que nunca reconheço. O que é o tempo? Não sei precisar. Sei que quando coloco um minuto no microondas para esquentar qualquer coisa para comer, ele parece desacelerar para assim me irritar e concluir que um minuto é muito para quando estou com fome. Mas, quando esse um minuto significa uma conversa no WhatsApp, coisa que não existia a uns anos atrás, parece que ele passa rápido, nem pisquei os olhos e a mensagem que enviei e aguarda resposta, está lá a mais de um minuto causando o mal de todos nos tempos de hoje: a ansiedade. Ok! Você dirá que perder a paciência com o minuto do microondas é ansiedade, concordarei. Só que quando es...

- eu

imagem do filme corpo manifesto Na meia luz que fica quando a noite chega e me deito para ler, mesmo desatenta tive um irreconhecer de mim. Algumas fantasmagorias e impressões latentes sobre meu corpo bruxuleavam na retina, como marionetes no canto da lente da vida míope. Há momentos que não gosto dele, o corpo humano. Para mim, ele, parece um excesso, um lençol, ou melhor, uma roupa desarrumaa. Que com o passar dos anos vai criando dobras impossíveis de desfazer. Hoje em quanto eu lia, olhei para minas mãos, e assustada ocorreu-me que não era minha mão, que era algo encaixado, algo sem pertença e de outros. O lhei naquele instante para a minha mão e de algum modo o ângulo que estava o meu olhar ou a minha mão, desconheci. Vi a mão do meu pai diminuída para se assemelhar com os dedos de minha avó. E, por breves instantes cri observar que eram os dedos de minha avó numa mão reduzida de meu pai. Não me reconheci entre falange s. O estranho começou a chegar nos locais que...

Uma bruxa mora no meu quarto

Demorei a perceber que me drenava as alegrias e apenas me engordava de palavras doces. Com seus cabelos branco neve, sua vaidade exagerada e uma irritante mania de crer que o mundo está contra ela. Assim, acabei por amá-la. Um erro poroso como sua pele, essa mesma pele que sempre salienta estar maltratada para explicar a vilania do mundo. No momento que abri a porta do quarto ela se instalou. Bem... falando desse modo, parece que a encontrei a beirada do portão implorando um prato de comida. Não foi assim! Ela sempre esteve aqui, antes mesmo do meu nascimento. E hoje, creio apenas ter nascido para lhe ser útil. Mas, não vou fazer tantas digressões, vou voltar ao “fado”: Ela mora no meu quarto. E seu prato de comida hipotético são todos os meus sentimentos. Que com voracidade ela baqueteia-se até que eu esteja esquálida de um substrato primordial chamado AMOR. Eu possuo, ela não ! Por isso, quando colérica me insulta, me espanca, me ameaça e eu, eu apenas paraliso. S...

GEORGINA

Sentada em uma estação de metrô, que descera por estar nervosa e confusa com seu caminho, ela observa com um olhar alheio os passantes. Um bebê que berra, uma mulher exageradamente maquiada, um vendedor de bala nervoso para a chegada da próxima composição – Não é permitido comercio no metrô, mas todos fazem! Bastava apenas deixar o suspiro chegar e com ele o choro de seu desespero emergir. Bastava se entregar ao medo e a ansiedade que a consumia. Bastava... Mas, para ela não cabia o bastava e principalmente, não se permitiria sucumbir aos sentimentos estrangeiros que os caminhos errôneos nos sobrepõe. De modo despretensioso, ela retira da bolsa o que a distingue dos outros passantes ou não, da estação. Ela pega seu batom cor amora e em um movimento preciso que diz ao mundo: - Não estou perdida. Ela passa-o nos lábios aquela cor frutada que diz muito sobre sua personalidade. Pois existe uma intenção que pessoa alguma pode captar e mulher alguma pode repetir. P...

fragmento para Bom Jardim...

“(...) sabes, eu vou morrer. Com todo o carinho que me tens devolvo-te agora. ” Assim, pelo fim que começo a notar a mosca grávida do tempo, mas não cheia de suas liberdades e de seu mosquear. Ela está presa, presa naquele olhar anguloso, felino e predatório, que se transforma em várias garras e dentes, no seu olhar prismado. Comecei a me pôr no lugar do seu gato, tentando apreender o cheiro da chuva que deixou o tempo abafado, no seu 18 de janeiro de 2017. Por onde será que andou esse envelope, ou o olhar contemplativo do autor da carta. Eu sei que o meu persegue a mosca, a mosca descrita no papel, o gato que a percebe e a casa de plástico, onde o rapaz não me descreve como é, pois não há algo impactante para se revelar do espaço. O impactante é ele! Estou enferrujada com as letras, escrever virou algo doloroso e dolorido, os ex-amores me engessaram, pois descubro que tudo que amo acaba sendo de um impacto na vida do outro, tiro de mim os tijolos para construir a paz de...

Soldado

não há necessidade todo dia é dia a guerra  faz feridas  atômicos corações  Granadas no meio do peito o miocárdio  implode tudo  eu, doloroso fantasma de amores ilusórios. 

onde você está

metade de mim é parte do que deixei contigo. em parte deixei-me todo pensando que fostes abrigo. me enganei! mão no peito não tenho pulso oco vazio de um peito vadio. que teima em amar, teima em te querer.

C8H10N4O2

poussière étoiles - Ludivc Florent Um poeta escreveu uma vez que todas as cartas de amor são ridículas. E elas são! Mas, o que seria de nós seres apaixonados sem essas cartas.   Toda manhã sigo um ritual, faço meu café forte, pois quando sinto aquele aroma, tudo em mim desperta e principalmente o sorriso, sorriso esse que andava escondido, nublado como o Rio. Até você chegar...   Não consigo deixar de lembrar, quando fecho os olhos, o que me falou dos seus óculos de grau, como se sentia desconfortável e como isso mudou quando ouviu um cineasta dizer, que os óculos trazem o enquadramento necessário e que sem eles, ele se sentiria perdido. Fiquei olhando para os seus, e até agora me pergunto que enquadramento devo ter no seu filme mental?  Consigo ter a mesma sensação da primeira vez, o nervosismo, a urgência de querer encostar em você e não saber como, nem por onde começar. E aquele cheiro, cheiro de grama molhada e café fresco, que me esquentava por d...

bubble soap

letras fortes inundam minha mente enquanto rodopio. giros rápidos tornam o infinito multicor. estrelas formam constelações de bolhas de sabão. no paralelepípedo me equilibro faço do corpo um malabar. há momentos que sou mágica outros, música e eternamente melodia. não existe melhor jogo, que esse... eu, você fado e fadado, entrelaçados.

volta aGosto

a cigana leu no universo da palma da minha mão, que desde ontonte, você voltaria. meu peito fez alegria nessa feitiçaria  que tu me pertences e eu pertencia. o búzio caiu da mesa do jogo do babalorixá e nem precisou revelar o que o vento trazia. viaja, volta, viaja... e eu cativa dessa espera vivo faceira e feliz com às esperanças do fado da vida. cá te espera: o caldinho, o feijão e a vida.

CITY OF BLINDEYES

 É só um som surdo... e SugarBoy continua sorrindo... Uma chuva fina e intermitente molha a rua, onde vários homens e mulheres passam com seus guarda chuvas pretos, seus cigarros e angústias. Sentado a porta de um edifício de luxo está um menino de aparentemente seis anos de idade, ele carrega consigo uma pequena caixa de engraxe. É hora do rush e ouvimos sua voz, distinta entre os barulhos da metrópole. - Quer que engraxe, senhor? E essa pergunta é repetida à exaustão, com algumas pequenas modificações. Um homem branco de terno bem cortado, com um cigarro na boca para ao lado de SugarBoy, que prontamente pergunta: - Quer que engraxe seus sapatos, senhor? O homem avalia o menino com um olhar de desprezo. - Isso vai me custar quanto, nigger? - cinquenta centavos de dólar, senhor. – responde o menino. Já que saíra para fumar, e até o fim daquele cigarro, ele poderia dispensar para engraxar os sapatos. O homem estende o pé esquerdo e o menino começa a engraxar, ...

heroin

toneladas de imagens borradas, apagadas esquecidas... hoje limpei o porão da vida, e iniciei ingrime subida. do alto não há medo ou escuro nem vertigem joguei-me nasceu mais um suícida.

Raised by wolves

Acorde e sinta. Desaparecerão os ecos Do seu futuro imperfeito Você pode portar Armas de destruição em Massa, disforme Atomicamente rápida. Corra! Hoje você esqueceu. De todos os rostos, sorrisos E frase de amor, Você é cria  Da matilha de lobos. Você é mais forte, que O cheiro de camels  No seu cabelo. Esse arranhões  Só provam, que  As agulhas não picam Elas te dão vida. E você é forte.

Only Lovers... (Part. I)

Only Lovers Left Alive As desvantagens de uma doença mental, tecnicamente são: você vive preso a um mundo muito restrito de contatos, seu escudo de cristal que é sua excentricidade é a navalha usada diariamente para cortes profundos em suas próprias veias. Não existe alternativa para a amizade, amores, normalidade cotidiana da sociedade. Podemos brincar e nos dizer antissociais. Mas, a verdade não é essa simples palavras para uma disfunção química! É desse modo inusitado que conhecemos Adam (Tom Hiddleton), um músico assolado pelo mal do tédio a vida, a história e principalmente a incredulidade de saber-se diferente da manada e não compreender porque ela se autodestrói em sua busca voraz por uma felicidade. Ele nos dá uma aula de conhecimento musical em apenas 10min de filme. E sim, podemos afirmar que nos apaixonamos por ele, e entendemos suas crises existenciais depois de poucos instantes de filme. Do outro lado da moeda, pois sempre existe um outro lado das mani...

Desejos

Estranho deitar a cabeça no travesseiro, e pensar o quanto meu mundo interno está pleno? Hoje um pobre escritor, com algumas taças de vinho e um único pensamento, a vontade furiosa de percorrer os dedos por seus cabelos. Sentir na minha pele, a sua e o sabor do suor, que fica doce quando se está sobre um corpo em um compasso ritmado. Qual será seu sabor? Quando fecho os olhos e vislumbro esse momento, onde nu percorro seu corpo febril, seu cheiro é de canela, misturado na minha língua de vinho. Ocorre o bouquet exótico e selvagem da pertença sem posses.  Fecho os olhos, e tento tecer como seria se isso; esses vislumbres não fossem apenas um olhar desconhecido, que profundamente fita os meus de passagem e parte levando na íris meus desejos mais profundos, meus pensamentos mais luxuriosos. Que sabor terá seu corpo? Será que me deixará provar? Qual sabor terá seu corpo quando estivermos um dentro do outro? Qual sabor...

Sorriso

Sentada em frente ao meu laptop, penso, penso no trajeto da caixa, na escolha do tecido e sim, penso na pessoa que o fez sorrindo. Adoro rosas! É as primeiras que, de certo modo, ganho em anos. São lindas! O intrigante é o que posso tirar desse “presente” que não saíra da minha cabeça, pois fui iniciada no clube seleto, das pessoas que usam chapéus. Assim que coloquei-o na cabeça explodiu em mim uma galáxia de felicidade e principalmente ideias. Ideias, ideias para textos, força para viajar. Creio que devemos ter o mesmo bicho eu e o chapéu. O bicho do transporte, da estrada de se encantar com pequenas Igrejas, rendeiras, as feiras onde tudo se vende, e a freguesa bonita leva uma prova de fruta. Vasculhei, meu chapéu, para ver que magia ele trouxe consigo, vi numa etiquetinha: escutando Gal Costa. Eu estava ouvindo o que é de hábito ouvir, Bethânia. E num momento de reencontro entre elas, irrompia em meus ouvidos – A bruta flor do quer, a bruta flor, bruta flor – Será qu...

Serápis

Estarei eu virando uma alcóolatra as escondidas? Não sei ao certo, sei que bebo, direto da garrafa, sem nenhuma etiqueta, saco a rolha e bebo, bebo goles longos, até sentir que meu sangue é mais vinho que sangue e que uma gota escorre no canto da boca. Deveria minha família investir na minha reabilitação, sou altamente venosa para os transeuntes ou para os que convivem comigo. Veja, estão todos doentes, esfarelados, fragmentados. Escolhendo as saídas mais fáceis, as coxas mais definidas, o sexo, no mesmo espaço. Bom ou ruim, amor não existe mesmo. Existe os sentimentos loucos e doentios, deixados como tapas bem dados, que a puta pede dizendo – mais forte, mais forte. O prêmio é a marca, estar marcada como gado, como produto com código de barras. É insensível, não por opção, mas por imposição. Renegada ao vinho, aos comprimidos e ao sono confuso. Sem sonhos, sem nada. Só aquela massa compacta de incertezas e de correntezas que seu Estige impõe. Para que o Olimpo se o mu...

O Louco

Isso mesmo. Eu sou esse espírito vagabundo que faz traquinagens para que meu amo fique alegre. PUCK – Sonho de Uma Noite de Verão, Shakespeare. Como se fosse fácil assim, fazer sorrir quem amo. Tento, enfeito de flores os cabelos das ninfas, perfumo com rosas as palavras, me embrenho nos jogos de amor de Oberon e Titânia. No entanto, fazer sorrir meu amor, impossível é. Hoje, já não sei que rosto tem, qual voz emprega se sente saudade de mim. Cada dia que passa, o semblante fica mais disforme, e eu procuro alguém que se encaixe a essas noites de vindouro Inverno. Esperando quem sabe um verão mais delicado, para esse coração maltrapilho. Não se engane, apesar dos olhos tristes, sei fazer multidões sorrir, e sei fazer certos olhares se apaixonarem, pelo primeiro sorriso encantador que surgir. Mas, essa mágica eu não trago para mim, não há romance, encantamento que dure. Sigo, sendo esse espírito. Lembro, lembro, do tempo que minhas traquinagens inofensivas faziam alguns cantar...